Qualidade da fé
Qualidade da Fé
Na sociedade atual, cada vez mais nos deparamos com o inconformismo e a insatisfação, de uma forma generalizada.
É como uma praga que se instala e corrompe quase todos.
Quando nos cruzamos uns com os outros, no dia a dia, rapidamente passamos das saudações às queixas sobre as dificuldades, às constatações dos erros alheios, às desgraças do mundo e ao julgamento das circunstâncias e dos que nos cercam.
Esse é, de uma forma geral, o estado de espírito em que nos encontramos aqui na Terra e os temas predominantes das nossas conversas.
Como consequência, nascem as depressões, a insatisfação constante com tudo e com todos e a busca incessante por soluções, seja na procura de milagres espirituais através das mais diversas religiões e filosofias, seja através de preces que simplesmente visam a solução dos sofrimentos e descontentamentos.
Será, provavelmente, a doença mental que mais afeta esta humanidade.
É altura de fazermos uma reflexão sobre uma pergunta:
Qual é a qualidade da nossa fé?
Provavelmente, muitos dirão:
— Eu tenho muita fé!
Outros acrescentam ainda:
— Sei que um dia tudo vai dar certo!
Mas, quando as suas bocas se abrem, as suas conversas são sempre iguais: a insatisfação, o inconformismo e o julgamento alheio.
De uma forma geral, atribuímos todas as nossas desgraças a circunstâncias exteriores e muito raramente reconhecemos que as nossas desgraças são fruto de nós mesmos.
Mas continuamos a dizer que temos muita fé.
E assim rezamos continuamente, frequentamos mil templos, sempre na esperança de ver as nossas desgraças e ambições atendidas e resolvidas.
Mas, afinal, que fé é essa que temos?
Queridos irmãos, quando verdadeiramente nos questionarmos sobre a qualidade da nossa fé, talvez fiquemos surpreendidos connosco mesmos ao verificar que quase não temos fé.
Por isso, em Mateus 17:20, Jesus disse:
«Porque a fé que vocês têm é pequena. Eu asseguro que, se vocês tiverem fé do tamanho de um grão de mostarda, poderão dizer a este monte: "Vá daqui para lá", e ele irá. Nada será impossível para vocês.»
Jesus falava por parábolas e utilizava expressões que tivessem fácil entendimento.
Em relação à fé, Ele coloca duas dimensões:
- o grão de mostarda (quer dizer uma fé muito pequena);
- mover um monte (a dimensão e a magnitude do poder da fé).
Mas que fé é essa? À qual Jesus se referia?
Será que se referia a prodígios?
A curas milagrosas?
À abundância material?
À transformação de desafetos em maravilhosas relações?
À concretização das ambições?
A soluções milagrosas para os nossos problemas?
Onde encontramos uma só referência de que a fé resolve as nossas desgraças e misérias?
Jesus nunca disse que nos retirava os problemas. Antes, afirmou:
«Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei.»
Também disse que nem um só ceitil ficará por pagar.
Disse ainda que, antes mesmo de abrirdes a vossa boca em prece, o Pai já conhece as vossas necessidades, antes mesmo de Lhe pedirdes.
Se fizermos uma séria reflexão sobre estes ensinamentos de Jesus, iremos confrontar a nossa fé com a fé verdadeira.
Primeiramente, devemos considerar que, se o Pai sabe de todos os nossos sofrimentos e necessidades, então por que razão permite que soframos?
Isso remete-nos para outra afirmação de Jesus:
«Nem um só ceitil ficará por pagar.»
Essa é a resposta que muitas vezes não queremos aceitar, pois achamos que nada devemos e que estamos sempre certos.
Esquecemo-nos de que não viemos à Terra a passeio. A nossa missão resume-se a uma coisa muito simples:
o nosso aprendizado para o nosso progresso.
Nada nas nossas vidas acontece ao acaso. Nenhum sofrimento nos é imposto indevidamente. Nenhuma dificuldade nos é imposta sem que haja necessidade.
Daí compreendermos que o nosso Pai é:
Sábio, porque tudo sabe e nos dá as ferramentas certas para a nossa evolução, às quais chamamos desgraças ou infortúnios.
Justo, porque não permite que nenhum sofrimento nos seja imposto indevidamente; contudo, temos sempre de saldar completamente as nossas dívidas.
Misericordioso, porque Se compadece das nossas misérias e determina que sejamos inspirados, amparados e encorajados pelos nossos benfeitores.
Todos os nossos sofrimentos têm origem em nós mesmos, na nossa imperfeição e ignorância. Os erros que cometemos estão sujeitos à lei de causa e efeito.
É como ensinamento que os sofrimentos surgem, e não como castigo. É através deles que ficamos mais frágeis e humildes, com o coração mais aberto ao Alto, ao aprendizado e ao progresso.
Sem eles, estaríamos condenados à estagnação e à repetição, devido à nossa teimosia.
Os males do mundo são consequência dos seus próprios atos. As dificuldades de uma sociedade são o reflexo das suas iniquidades. As desgraças coletivas são as lições de que tanto necessitamos.
Na única oração que Jesus nos ensinou, há uma frase sobre a qual devemos refletir seriamente:
«Seja feita a vossa vontade, assim na Terra como no Céu.»
Se oramos o Pai-Nosso, ao pronunciarmos esta frase cabe-nos aceitar as nossas desgraças sem inconformismo e, em vez de pedirmos o afastamento delas, devemos pedir discernimento para as compreender, força para as suportar com resignação e coragem para a necessária transformação.
Ter qualidade de fé é ter como verdade que estamos a caminhar no nosso progresso, reconhecer a nossa imperfeição, pagar as nossas dívidas e reparar os erros cometidos.
É ter como verdade que aquele que realmente deseja reparar os seus erros é ajudado com coragem, entendimento e com as ferramentas certas que o Pai nos envia diariamente.
É sorrir e agradecer a oportunidade desta jornada, na qual, durante os breves momentos a que chamamos vida, teremos a oportunidade de quitar séculos de sofrimentos no mundo espiritual.
É ter consciência de que a Terra é um hospital, uma escola e uma prisão.
As misérias são as lições.
Os sofrimentos são os pagamentos.
Ter fé é ter a consciência de que aquele que, em sã consciência, se dedica genuinamente ao seu progresso, com resignação perante a sua situação, é ajudado em todos os momentos,
com discernimento, inspiração, força e coragem para travar as necessárias batalhas contra o nosso ego, as nossas ambições materiais, a nossa vaidade e os nossos repetidos erros.
E um dia, após justa tribulação, sairemos vitoriosos e juntar-nos-emos aos nossos irmãos nas cidades de luz.
