Qualidade da fé

18-02-2017 15:44

Qualidade da Fé

 

Na sociedade atual, cada vez mais nos deparamos com o inconformismo e a insatisfação, de uma forma generalizada.

É como uma praga que se instala e corrompe quase todos.

Quando nos cruzamos uns com os outros, no dia a dia, rapidamente passamos das saudações às queixas sobre as dificuldades, às constatações dos erros alheios, às desgraças do mundo e ao julgamento das circunstâncias e dos que nos cercam.

Esse é, de uma forma geral, o estado de espírito em que nos encontramos aqui na Terra e os temas predominantes das nossas conversas.

Como consequência, nascem as depressões, a insatisfação constante com tudo e com todos e a busca incessante por soluções, seja na procura de milagres espirituais através das mais diversas religiões e filosofias, seja através de preces que simplesmente visam a solução dos sofrimentos e descontentamentos.

Será, provavelmente, a doença mental que mais afeta esta humanidade.

É altura de fazermos uma reflexão sobre uma pergunta:

Qual é a qualidade da nossa fé?

Provavelmente, muitos dirão:

— Eu tenho muita fé!

Outros acrescentam ainda:

— Sei que um dia tudo vai dar certo!

Mas, quando as suas bocas se abrem, as suas conversas são sempre iguais: a insatisfação, o inconformismo e o julgamento alheio.

De uma forma geral, atribuímos todas as nossas desgraças a circunstâncias exteriores e muito raramente reconhecemos que as nossas desgraças são fruto de nós mesmos.

Mas continuamos a dizer que temos muita fé.

E assim rezamos continuamente, frequentamos mil templos, sempre na esperança de ver as nossas desgraças e ambições atendidas e resolvidas.

Mas, afinal, que fé é essa que temos?

Queridos irmãos, quando verdadeiramente nos questionarmos sobre a qualidade da nossa fé, talvez fiquemos surpreendidos connosco mesmos ao verificar que quase não temos fé.

Por isso, em Mateus 17:20, Jesus disse:

«Porque a fé que vocês têm é pequena. Eu asseguro que, se vocês tiverem fé do tamanho de um grão de mostarda, poderão dizer a este monte: "Vá daqui para lá", e ele irá. Nada será impossível para vocês.»

Jesus falava por parábolas e utilizava expressões que tivessem fácil entendimento.

Em relação à fé, Ele coloca duas dimensões:

  • o grão de mostarda (quer dizer uma fé muito pequena);
  • mover um monte (a dimensão e a magnitude do poder da fé).

Mas que fé é essa? À qual Jesus se referia?

Será que se referia a prodígios?

A curas milagrosas?

À abundância material?

À transformação de desafetos em maravilhosas relações?

À concretização das ambições?

A soluções milagrosas para os nossos problemas?

Onde encontramos uma só referência de que a fé resolve as nossas desgraças e misérias?

Jesus nunca disse que nos retirava os problemas. Antes, afirmou:

«Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei.»

Também disse que nem um só ceitil ficará por pagar.

Disse ainda que, antes mesmo de abrirdes a vossa boca em prece, o Pai já conhece as vossas necessidades, antes mesmo de Lhe pedirdes.

Se fizermos uma séria reflexão sobre estes ensinamentos de Jesus, iremos confrontar a nossa fé com a fé verdadeira.

Primeiramente, devemos considerar que, se o Pai sabe de todos os nossos sofrimentos e necessidades, então por que razão permite que soframos?

Isso remete-nos para outra afirmação de Jesus:

«Nem um só ceitil ficará por pagar.»

Essa é a resposta que muitas vezes não queremos aceitar, pois achamos que nada devemos e que estamos sempre certos.

Esquecemo-nos de que não viemos à Terra a passeio. A nossa missão resume-se a uma coisa muito simples:

o nosso aprendizado para o nosso progresso.

Nada nas nossas vidas acontece ao acaso. Nenhum sofrimento nos é imposto indevidamente. Nenhuma dificuldade nos é imposta sem que haja necessidade.

Daí compreendermos que o nosso Pai é:

Sábio, porque tudo sabe e nos dá as ferramentas certas para a nossa evolução, às quais chamamos desgraças ou infortúnios.

Justo, porque não permite que nenhum sofrimento nos seja imposto indevidamente; contudo, temos sempre de saldar completamente as nossas dívidas.

Misericordioso, porque Se compadece das nossas misérias e determina que sejamos inspirados, amparados e encorajados pelos nossos benfeitores.

Todos os nossos sofrimentos têm origem em nós mesmos, na nossa imperfeição e ignorância. Os erros que cometemos estão sujeitos à lei de causa e efeito.

É como ensinamento que os sofrimentos surgem, e não como castigo. É através deles que ficamos mais frágeis e humildes, com o coração mais aberto ao Alto, ao aprendizado e ao progresso.

Sem eles, estaríamos condenados à estagnação e à repetição, devido à nossa teimosia.

Os males do mundo são consequência dos seus próprios atos. As dificuldades de uma sociedade são o reflexo das suas iniquidades. As desgraças coletivas são as lições de que tanto necessitamos.

Na única oração que Jesus nos ensinou, há uma frase sobre a qual devemos refletir seriamente:

«Seja feita a vossa vontade, assim na Terra como no Céu.»

Se oramos o Pai-Nosso, ao pronunciarmos esta frase cabe-nos aceitar as nossas desgraças sem inconformismo e, em vez de pedirmos o afastamento delas, devemos pedir discernimento para as compreender, força para as suportar com resignação e coragem para a necessária transformação.

Ter qualidade de fé é ter como verdade que estamos a caminhar no nosso progresso, reconhecer a nossa imperfeição, pagar as nossas dívidas e reparar os erros cometidos.

É ter como verdade que aquele que realmente deseja reparar os seus erros é ajudado com coragem, entendimento e com as ferramentas certas que o Pai nos envia diariamente.

É sorrir e agradecer a oportunidade desta jornada, na qual, durante os breves momentos a que chamamos vida, teremos a oportunidade de quitar séculos de sofrimentos no mundo espiritual.

É ter consciência de que a Terra é um hospital, uma escola e uma prisão.

As misérias são as lições.

Os sofrimentos são os pagamentos.

Ter fé é ter a consciência de que aquele que, em sã consciência, se dedica genuinamente ao seu progresso, com resignação perante a sua situação, é ajudado em todos os momentos,

com discernimento, inspiração, força e coragem para travar as necessárias batalhas contra o nosso ego, as nossas ambições materiais, a nossa vaidade e os nossos repetidos erros.

E um dia, após justa tribulação, sairemos vitoriosos e juntar-nos-emos aos nossos irmãos nas cidades de luz.